Oxford Shoulder Instability Score

Tradução, Adaptação e Validação do Oxford Shoulder Instability Score (OSIS)

 

Translation, Adaptation and Linguistic Validation of Oxford Shoulder Instability Score (OSIS)

Por, João Luciano

 

O Oxford Shoulder Instability Score (OSIS) foi desenvolvido para aferir a estabilidade uni ou multidirectional do ombro em pacientes que tenham sido submetidos a cirurgia e para indivíduos que apenas optaram pelo tratamento conservador. Verificam-se no contexto desportivo lesões que podem ser causadas pelo desgaste crónico e por lacerações, os quais decorrentes de movimentos repetitivos (overuse) e movimentos de overhead, movimentos estes presentes durante a prática de kayak-polo. O objectivo principal deste estudo é efetuar a tradução e a adaptação cultural do questionário OSIS para a língua portuguesa, a fim de utilizá- lo em atletas de Kayak-Polo com diferentes distúrbios do ombro. Métodos: Foi efetuado uma tradução e retroversão inicial, adaptação cultural e linguística e posterior aplicação dos questionários a um conjunto de atletas de kayak-polo (n=33) inscritos na Federação Portuguesa de Canoagem (FPC). Resultados: Verificou-se validade de conteúdo, de critério e de consistência interna do questionário traduzido aquando a realização da análise estatística. Discussão: Os resultados obtidos neste estudo não apresentam termos de comparação, visto que na pesquisa bibliográfica realizada não se verificaram estudos dentro da mesma temática. Conclusão: Os resultados obtidos pela versão portuguesa do OSIS permitem inferir que o instrumento traduzido possui bons níveis de fiabilidade.

O Oxford Shoulder Instability Score (OSIS) foi criado em 1998 pelo Dr. Jill Dawson, na Health Services Research Unit, na University of Oxford. O autor dispôs do auxílio de Andrew Carr, Presidente do British Elbow and Shoulder Surgery Society.

É um teste curto, com 12 itens pontuados, com o intuito de aferir uma condição específica, resultante do relato do paciente que o efetuou (Dawson, Fitzpatrick   & Carr 1998,p   420). Foi criado e desenvolvido para aferir a instabilidade uni ou multidirecional do ombro, em pacientes que tenham sido submetidos a cirurgia e para indivíduos que apenas optaram pelo tratamento conservador. (Dawson, Fitzpatrick & Carr 1998, p 420).

A articulação gleno-umeral, tendo em conta os três eixos de movimento explicado anteriormente, é considerada a mais móvel de todas as articulações do corpo humano, sendo a sua instabilidade um problema clínico muito frequente, principalmente em indivíduos jovens e ativos (Jana et al, 2011, p.98). Devido a este grande potencial de mobilidade é dita que é uma articulação intrinsecamente instável (Cartucho, Batista & Sarmento, 2007, 28).

A instabilidade glenoumeral pode ser classificada em muitas formas, como por exemplo, de acordo com o seu grau de subluxação, recorrência aguda e em relação à direção, isto é, unidirecional (podendo ser anterior, posterior ou inferior), ou instabilidade multidirecional, predominantemente associada a atividades desportivas que utilizam o braço acima do plano da omoplata (Jana et al, 2011, p.98; Cartucho, Batista & Sarmento, 2007, 31).

A canoagem é uma atividade náutica, que se subdivide em várias modalidades, nomeadamente o kayak- polo, que é praticado num campo com uma área de jogo de 40 por 20 metros, confinada em piscinas, lagos ou rios, sem ondulação que possa influenciar as equipas no decorrer do jogo (Federação Portuguesa de Canoagem, 2012). O objetivo   deste   desporto   é marcar o maior número de golos na baliza do adversário, assim sendo duas equipas, cada uma com 5 elementos em campo, irão disputar a bola durante duas partes de um jogo, com cerca de 10 minutos cada uma (Federação Portuguesa de Canoagem, 2012).

À semelhança do andebol e outros desportos com o mecanismo balístico de lançamento, o remate no Kayak-Polo é uma técnica agressiva para a coifa dos rotadores e coloca em tensão o ligamento glenoumeral inferior,   uma vez que se verifica o movimento repetitivo e acelerado de abdução do ombro, flexão do cotovelo e rotação externa para adução horizontal e rotação interna, no momento do lançamento, conforme Pezarat-Correia (2010, 35).

Conforme Pires et al. (2009, p.3), as lesões desportivas são provocadas por métodos de treino inadequados, alterações estruturais que sobrecarregam mais determinadas partes do corpo do que outras e por fraqueza muscular, tendinosa e ligamentar. Muitas dessas lesões também podem ser causadas pelo desgaste crónico e por lacerações, os quais são decorrentes de movimentos repetitivos   (overuse) que afetam os tecidos suscetíveis, bem como o movimento de lançamento ou overhead caracterizado por ações muitos rápidas do membro superior em que o objeto é arremessado através de um movimento acima do nível da cabeça.

Nos últimos tempos tem ocorrido um aumento do desenvolvimento de métodos de avaliação na área da saúde por parte de investigadores, contudo tirando algumas exceções, estes métodos são desenvolvidos para uma população de língua materna Inglesa.

Com o objetivo de colmatar a necessidade de aplicação escalas validadas para a população portuguesa, estão disponíveis duas possibilidades, ou o desenvolvimento de um novo método para a população alvo ou a tradução e adaptação cultural de métodos já desenvolvidos.

A tradução e a adaptação cultural da OSIS ao idioma português, além de disponibilizar uma nova ferramenta para os profissionais de reabilitação portugueses nos ambientes clínicos e de pesquisa, vem auxiliar na padronização dos métodos de avaliação funcional do ombro em Portugal com relação àqueles já utilizados em outros países, possibilizando, dessa forma, comparar estudos realizados em diferentes populações. Assim, este estudo tem por objetivo fazer a tradução e a adaptação cultural do questionário OSIS para a língua portuguesa, a fim de utilizá-lo em atletas de Kayak-Polo com diferentes distúrbios do ombro.

Métodos

Tipo de estudo

Este estudo é quantitativo não experimental metodológico, no qual se pretendeu dar um contributo para a validação da escala de Oxford Shoulder Instability Score (OSIS) para português de Portugal, sua aplicação e verificação de alguns aspetos da sua validade, visando a elaboração de um instrumento confiável, preciso e utilizável que possa ser empregue por outros pesquisadores (Polit & Hungler,1995, p.126). A sua questão de investigação foca-se na temática: “Será que a versão portuguesa do OSIS é adaptável à realidade e cultura Portuguesa?”.

Tradução e Adaptação do OSIS

Na primeira fase deste estudo (tradução), participaram dois tradutores, de nacionalidade portuguesa, para a tradução do documento original para a língua portuguesa. Numa segunda fase, procedeu-se à retroversão da escala da língua portuguesa para a língua inglesa, efetuada por dois tradutores de nacionalidade inglesa.

No processo de adaptação da escala, participaram quatro profissionais de saúde, de diferentes áreas, constituindo um grupo de personalidades que formou o painel de peritos, composto por três fisioterapeutas e um médico ortopedista. O objetivo deste painel peritos focou-se no consenso de uma versão final da tradução adaptada à língua e cultura portuguesa.

Amostra

A amostra foi não probabilística/ intencional e formada por 33 atletas femininos e/ou masculinos de Kayak- Polo inscritos na FPC, departamento de Kayak-Polo, durante a época de 2013. A seleção dos sujeitos que formaram a amostra deste estudo foi feita com base nos critérios de inclusão: ser praticante de kayak-polo há 2 anos ou mais; ter idade superior ou igual a 18 anos; praticar kayak-polo pelo menos duas vezes por semana; não praticar outro desporto que implique o movimento balístico do ombro. Os critérios de exclusão consistiram: indivíduos que não saibam ler e/ou escrever; indivíduos que apresentem alterações do estado cognitivo.

Instrumentos

Foi elaborado um questionário aplicado aos atletas de kayak-polo integrantes da instituição, este questionário permitiu fazer uma seleção mais viável da amostra consoante os critérios de inclusão e exclusão pré-definidos. A administração deste questionário foi realizada de forma direta, tendo sido enviado por via informática aos Clubes federados na FPC e preenchido pelo próprio atleta. Após definida a população e selecionada a amostra, foi aplicado o OSIS traduzido para a língua portuguesa, elaborado por Dawson, Fitzpatrick e Carr.

Processo de análise de dados

Para tratamento de dados, foi utilizada estatística descritiva e inferencial (correlação para a validade simultânea e o Alfa de Cronbach para a consistência interna), com recurso ao SPSS.

A análise estatística de dados foi realizada   no programa SPSS v.19. Foram realizados os testes de correlação para analisar a existência de relação entre as diversas variáveis.

Análise estatística/Resultados

No que refere à validade de conteúdo, o projeto de tradução foi todo aprovado por unanimidade pelo painel de peritos integrante do projeto.

O questionário apresenta consistência em termos de estabilidade temporal das medidas da variável latente, uma vez que diferentes indivíduos procederam a resposta do questionário de forma idêntica em eventos temporais diferentes.

O estudo da validade de critério, ou seja, a comparação de relação existente com outros questionários não foi realizada.

Aquando a análise correlacional entre itens, o item 1 não varia de acordo com os restantes itens, pois a sua correlação não é significativa. Ao proceder-se à análise fatorial confirmatória verificar- se que o item 1 define uma dimensão diferente. Esta dimensão justifica-se pelas particularidades do item 1, uma vez que, este é caracterizado pela presença ou não de luxação, tratando-se de um evento singular que se espera ser caracterizado dentro de um limite temporal, sendo que os outros itens definem a ocorrência de diversos acontecimentos que se esperam caracterizar numa multiplicidade de limites temporais e espaciais, tais como, atividades da vida diária.

Figura 1. Análise correlacional entre items (SPSS)
Figura 1. Análise correlacional entre items (SPSS)

Discussão

O OSIS português seguiu um conjunto de etapas com vista à adaptação cultural e linguística do instrumento numa cultura, linguagem, país e realidade distinta do instrumento de origem. Os resultados obtidos pela versão portuguesa do OSIS permitem inferir que o instrumento traduzido possui bons níveis de fiabilidade (Hill & Hill, 2005, 141-142).

Este tudo apresentou como limitações, a diminuta quantidade de respostas ao questionário,   visto que   o objetivo traçado tinha sido de, pelo menos, 60 indivíduos; a dificuldade de controlo no processo de resposta aos questionários, visto que apenas alguns questionários foram acompanhados aquando o seu preenchimento; e o difícil acesso a todos a população integrante no estudo. A inter-relação entre os investigadores e a amostra foi muito relevante, uma vez que potenciou a adesão dos mesmos ao projeto. De realçar, igualmente, a disponibilidade da Federação Portuguesa de Canoagem em autorizar a aplicação deste estudo, referindo em concreto, a sua importância para todos os seus atletas e população portuguesa.

Os resultados obtidos neste estudo não apresentam   termos de comparação, visto que na pesquisa bibliográfica realizada não se verificaram estudos dentro da mesma temática. Deste modo, torna-se impossível comparar a veracidade dos resultados obtidos com outros processos de tradução, adaptação e validação do OSIS.

Conclusão

Findado o estudo, podemos afirmar que a versão do OSIS adaptada para a população portuguesa mede o que se pretende que meça, não fugindo à sua versão   original,   isto é, é capaz de avaliar a presença de sintomatologia relacionada com instabilidade uni ou multidirecional do ombro em pacientes que tenham sido submetidos a cirurgia e para indivíduos que apenas optaram pelo tratamento conservador, ou até para indivíduos que não foram submetidos   a   qualquer   tipo   de tratamento, servindo como instrumento importante no auxilio ao diagnóstico.

A análise estatística dos resultados alcançados através dos valores de Alpha Cronbach e estatística de correlações, conclui-se que o OSIS português possui valores congruentes que apontam para a existência de coerência interna do mesmo. Podendo-se então, admitir o próximo passo de validação oficial do mesmo.

Referências Bibliográficas

  1. Cartucho, A., Batista, N. & Sarmento, M. (2007). Conceitos actuais sobre instabilidade do Ombro. Revista Portuguesa de Fisioterapia no Desporto, 1(2), 28-37.
  1. Dawson, J., Fitzpatrick, R. & Carr, J. (1998). The assessment of shoulder instability. The development and validation of a questionnaire. Bone & Joint Surg Br. 81B: 420-6
  1. Federação Portuguesa de Canoagem (2008). Regulamento de Kayak Polo. Federação Portuguesa de Canoagem – FPC. Retirado de http://www.fpcanoagem.pt
  1. Hill, M. M. & Hill, A. (2005). Investigação     Por     Questionário. Edições Sílabo. Lisboa
  1. Jana, M.& Gamanagatti, S. (2011). Magnetic ressonance imaging in glenohumeral instability. World J Radiol., 28:3(9), 224 – 232.
  1. Jana, M., Srivastava, N.D., Sharma, R.; Gamanagatti, S., Nag, H., Mittal, R., & Upadhyay, D.A. (2011). Spectrum of magnetic resonance imaging findings in clinical glenohumeral instability. India Institute of Medical Sciences, 21(2), 98 – 106.
  1. Pezarat-Correias, P. (2010). Perfil Muscular do Ombro de Atletas Praticantes de Acções de Lançamento. Revista Portuguesa de Fisioterapia Desporto, 4(1), 34-42
  1. Pires, L. M. T., Bini, I. C., Fernandes, W. V. B., Setti, J. A. P. (2009). Lesões no ombro e sua relção com a prática do voleibol – Revisão da Literatura. Revista Científica Internacional, 2 (10): 1-14

 

Palavras-Chave: Oxford Shoulder Instability Score, ombro, instabilidade, validação, kayak- polo

 

CRÉDITO DA IMAGEM DE DESTAQUE: http://breakingmuscle.com

 

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